terça-feira, 29 de janeiro de 2008

- Só te peço, cuidado.

- Te pedi pra ter cuidado, e você não teve.
- Te pedi pra ir comigo, e você não foi.
- Achei que você saberia se cuidar sozinho, confiei em você.
- E por que isso agora?
- Isso o quê?
- Confiar em mim.
- Sempre confiei.
- Você nunca disse.
- Achei que você havia percebido.
- Percebido?
- É.
- Não entendi.
- Você nunca entende.
- Eu não sou burro.
- Mas age como se fosse.
- Nós vamos acabar brigando.
- Já estamos...
- E isso é motivo para continuarmos?
- Continuarmos o que?
- A briga.
- Não sei. Por que quando não é pra perguntar minha opinião você pergunta?
- Eu sempre pergunto.
- Mentira.
- Não é.
- É sim. Você nunca tá nem aí pro o que eu penso quando você está decidido a fazer algo, eu sempre te peço pra ter cuidado, mesmo quando só desconfio que você vai fazer algo, e você nunca tem.
- Eu sou bem grandinho já.
- Não parece, você vive aí, em meio de caras e garotas que fumam, bebem, não pensam, correm, e todas aquelas outras coisas que você sabe que é errado.
- Vai querer me dar lição de moral agora?
- Não, eu só queria que você prestasse atenção!
- Em que? No seu sermão!?
- Pára! Pára de levar as coisas pro lado que te convém, pro lado que te coloca como vítima! Eu tô falando de prestar atenção em mim, nas coisas que gosto e naquelas que eu odeio! Como por exemplo, perguntas! Você sabe que eu odeio perguntar e continua aí, com esse cabelo liso, esses olhos verdes, esse jeito descuidado, essa cara sem rumo, e esse clássico par de tênis! Você sabe de tudo o que eu detesto! Sabe que eu odeio que você fume perto de mim, sabe que eu odeio que você mexa nas minhas coisas, sabe que eu odeio tempo quente, sabe que eu odeio sair de casa a noite pra ir em baladinha, sabe que eu adoro caminhar só por caminhar, sabe da minha paixão pela fotografia, sabe de tudo o que eu já fiz na vida e sabe o quanto eu te amo! Mas se você prestasse atenção em pelo menos um desses gostos e desgostos, então, nós não brigaríamos tanto e eu poderia me manter paciente por mais tempo com todas as outras coisas que existiam na sua vida antes de eu te conhecer. Você sabe o quanto ter você só pra mim, e ter você do meu lado mesmo que não seja pra dizer nada, me faz bem; mas você esquece disso todos os dias, porque não presta atenção! E eu estou absolutamente cansada de tudo isso.
- E eu adoro quando você explode.
- Tá vendo? Custa me dizer algo diferente de "eu adoro quando você explode" pelo menos uma vez? Custa?
- Não meu amor, mas eu sempre acho que esse é o melhor modo.
- Mas não é! Presta atenção! Presta atenção no que eu digo, nas palavras que a minha boca reproduz.
- Eu não sei o que fazer se eu me distraio quando você explode, eu acho lindo o modo com qual você balança os braços, a frequência com qual você espreme os olhos, e a forma com que você anda de um lado para o outro quando está assim. Eu gosto até quando você bate com essa mão tão sensível e macia, na mesa, ou então, no meu ombro. Eu gosto quando você fica vermelha ao ficar irritada, gosto como a sua voz toma outro tom quando você percebe que estou distraído, gosto quando você se preocupa e gosto quando você pede pra eu me cuidar. Mas a verdade é uma só, não importa o que aconteça e quantas vezes você me diga, eu sempre vou me distrair com qualquer detalhe seu, porque neles eu presto atenção e é com eles que você cuida de mim, porém, não consigo reproduzi-los e isso faz com que eu não consiga me cuidar sozinho, portanto, eu te peço desculpa.
- Isso... (lágrimas nos olhos, lábios avermelhados, escorre uma lágrima, morde o lábio.) Isso foi lindo. Você nunca me disse isso... Eu amei ouvir...
- Tá vendo? É disso que eu falo, quando você explode você fala coisas incríveis em meio as suas reclamações. (Se aproxima dela, com uma cara de: posso? passa de leve a mão pelo rosto dela, secando as lágrimas e com a outra a envolve em seus braços olhando no fundo dos seus olhos.) Eu te amo, e nunca vou deixar de amar.
- Eu também te amo.
- Então estamos bem?
- Só te peço cuidado, comigo dessa vez.

Um comentário:

Lucélia Canassa disse...

gostei, presente!
cê sabe que adoro essas histórias, né?
(L)